spacer
spacer search

Jornal Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte
www.jornalpoiesis.com

Search
spacer
Eventos Culturais
"Poesia na Rua" terá varal de poesia, leitura e dramatização de textos no calçadão de Bacaxá, todo primeiro sábado de cada mês.

Read more...
header
Menu Principal
Home
Editorial
Assinaturas
Fale Conosco
Artigos
Agenda Cultural
Artes
Resenhas
Ensaios
Estudos de Literatura
Psicologia
Teatro
Música
Entrevistas
Cronicas
Contos
Poemas
Site antigo (2002/2004)
Quem Somos
Perguntas Frequentes
Busca
Links
 
Home arrow Resenhas arrow Escolas Literárias no Brasil

Escolas Literárias no Brasil PDF Print E-mail
Written by Gerson Valle   
12-Mai-2005 às 15:49
(“Escolas Literárias no Brasil” é o título da obra em dois volumes, editada em 2004 pela Academia Brasileira de Letras ABL, em sua Coleção Austragésilo de Athayde, sob a coordenação do acadêmico Ivan Junqueira

Ivan Junqueira é, antes de mais nada, poeta. Antônio Carlos Secchin bem define sua atividade poética como muito intensa e pouco extensa (in: “O exato exaspero”, prefácio para o livro “A sagração dos ossos”, de Ivan Junqueira, Civilização Brasileira, 1994). Sim, um poeta de poucos e curtos livros, que, entretanto, dedica-se com um afinco imenso à Poesia. E a sua é muito própria, percorrendo, sem aparente elucubração metafísica, a idéia da morte, que aparece com certa constância nos “ossos”, ou seja, na materialidade final de que a espécie se consubstancia, tocando mesmo um vocabulário nem sempre corrente na modernidade, assim como formas bem acabadas sem uma entonação propriamente parnasiana. Por não encarar metafisicamente a morte, para ele “a vida é maior que a morte”. Um materialista, convicto de cientificismo realista? Um novo Augusto dos Anjos, que, inclusive, se aprazia em termos pouco convencionais, mesmo científicos dentro de sua poesia? Há, no entanto, ao lado dos “ossos” da matéria, um lirismo próprio, provindo de uma busca de musicalidade inerente às palavras escolhidas para os versos, como neste quarteto tirado de “Penélope: cinco fragmentos” (in: “O Grifo”, Editora Nova Fronteira, 1987): “Sob o penhasco que anoitece / o som das ondas vai rolando. / Penélope tece e destece. / O mar é onde, o tempo é quando.” Aliás, seu lirismo chega a tocar Camões, como no dístico final deste soneto inglês (também em “O Grifo”): “E te amo além porque te sei perdida, / e mais te amara fosse eterna a vida”. Por outro lado, há em Ivan, também, uma certa secura concisa, talvez herdada de João Cabral (poeta que lhe antecedeu na cadeira da Academia, e de que, em seu discurso de posse, fez uma brilhante apreciação), como na quadra inicial de um poema que traz um de seus temas mais recorrentes: “A morte é um cavalo seco / que pasta sobre o penedo; / ninguém o doma ou esporeia / nem à boca lhe põe freios”, chegando, no entanto, na última quadra, no seu entusiasmo que repassa Romantismo e Simbolismo, à apreciação com certo tom de erotismo, que também o caracteriza em outros poemas: “a morte é estrito desejo; / deita-se lânguida e bêbeda / à lenta espera daquele / que a leve, sôfrego, ao êxtase”. Há, assim, um arco de saída e chegada que perpassa tendências e conhecimentos de sua Poesia em tempo integral.

Não me proponho aqui a comentar a obra de Ivan Junqueira. Tais observações servem apenas para ilustrar a sua dedicação intensa (como observa Secchin) à Poesia. Dedicação esta que o encaminhou ao estudo aprofundado de línguas e conhecimento também profundo da Poesia de outros povos, para daí saírem vastas traduções, dentre outros de Baudelaire (“todas as” “Flores do Mal”), T. S Elliot (poesias completas), Dylan Thomas, Chesterton, Leopardi, sempre com introdução e notas. Se não é extensa a sua obra poética, ela assim se torna, se compreendermos a realização poética por leituras, reflexões, traduções, e ensaios que abordam escolas literárias e autores de todos os tempos, como integrante, seja como preparação ou “afinação”, de sua própria poesia.

A extensão, assim, de sua Poesia, é muito maior que os poemas publicados, e se faz notar também pela relação de seus afazeres administrativos voltados para a escrita e produção de livros, que passaram por várias enciclopédias, Fundação Rio (como assessor de Rubem Fonseca), FUNARTE (onde foi editor da revista idealizada por Ferreira Gullar, Piracema), na Biblioteca Nacional (editor executivo da revista Poesia Sempre) e, finalmente, o coroamento, como um dos 40 acadêmicos do órgão que procura ser o mais representativo de nossas letras, destacado sucessivamente como Tesoureiro, Secretário-Geral, e Presidente.
Entretanto, tal órgão a ABL nem sempre foi assim considerada por grande parte de nossa intelectualidade. Houve muitos críticos, tal como o teatrólogo Guilherme de Figueiredo, que escreviam horrores sobre a Academia, lugar que parecia ser apenas um ponto de encontro de ociosidade para se tomar chá e parolar... De alguns anos para cá tais críticas já não podem ser feitas, pois a produção intelectual, acaso existente a despeito dos críticos, passou a ser visível para todos, com uma grande constância de ciclos de conferências sobre diversos aspectos literários, publicações de séries diversas de livros (como a Coleção Afrânio Peixoto e a Coleção Austragésilo de Athayde), voltando a circular, inclusive, a “Revista Brasileira” de histórica importância, e ainda exposições e outros eventos marcantes. Ivan Junqueira tem coordenado quase todas estas atividades, podendo-se mesmo dizer que é um dos acadêmicos que mais se esmeram por “produzir sua Poesia” (em sentido maior, abrangendo até mesmo o trabalho administrativo, pondo em tudo sua missão de Poeta) no espaço da “nova ABL”, se assim se pode dizer.

Sob sua coordenação realizaram-se vários ciclos de conferências, entre 2001 e 2003, que tinham por temas as grandes escolas literárias no Brasil entre os séculos XVII e XX, ministradas não só por acadêmicos, mas por professores, críticos, escritores de destaque no mundo de nossas letras. A idéia central não era a apresentação sistemática e/ou didática dessas escolas, mas sim reflexões, na maior parte das vezes até mesmo inovadoras, pressupondo ou não o conhecimento prévio dos ouvintes sobre as escolas. Depois, em 2004, Ivan Junqueira coordenou a edição em 2 volumes de tais ciclos. O resultado é bastante original, com os enfoques e abordagens completamente diferentes dados por cada autor nos artigos saídos de conferências. Alguns, inclusive, têm por tema questões gerais da escola que tratam, sem, necessariamente tocarem em sua manifestação brasileira. Destes, curiosíssimo é observar certa analogia de observação quanto a escolas bem diversas. Refiro-me às páginas assinadas por Sérgio Paulo Rouanet e Eduardo Portella. O primeiro, ao tratar do Barroco, lembra que, segundo Eugenio d'Ors, esta escola é um eon, “uma constante histórica que ressurge em diferentes momentos da evolução dos homens”. E dá os exemplos de seus diversos aparecimentos por épocas diferentes, inclusive afirmando que “Vivemos hoje um verdadeiro boom do neobarroco. Ele se manifesta nas artes decorativas, nas artes plásticas, e, como vimos, no cinema, sempre com a preocupação de valorizar o kitsch, de recorrer à sua estética de excesso, do desmedido, do ornamentalismo à outrance, sempre visando produzir uma impressão de impacto, de estupefação”. E Eduardo Portella, em seu texto “Realismo sem adjetivos” define: “O Realismo é um dos movimentos mais indefinidos da história literária”; “...no lugar de ser uma escola, com tudo o que esta possa ter de convencional, é antes o modo de ver a realidade...” E define o mais radical escritor realista moderno como sendo Miguel de Cervantes com seu Don Quijote de la Mancha. Assim, tanto o Barroco quanto o Realismo não se definem em seus tempos precisos, retornando sempre como características do próprio ser humano. Dentro do tempo propriamente realista, Portella lembra que o Realismo nasceu da agonia das ilusões no “crepúsculo do Romantismo”, aludindo a Balzac e as “Ilusões Perdidas”. De onde provém um interessante jogo de palavras, não aconselhando transpor “esse precário esquema argumentativo para a literatura brasileira”: “No Brasil não houve “perdas”, porque não houve “ilusões”. As nossas ilusões eram ilusões de segunda mão”... Aliás, ainda de Sergio Paulo Rouanet, e considerando agora o nosso realismo, bastante inovador é o artigo “A construção da histeria feminina em Aluizio Azevedo”, onde demonstra ser “O Homem”, romance normalmente desprezado pela crítica, tão bom quanto “O Mulato”, “Casa de Pensão”, “O Coruja” e “O Cortiço”, fazendo um paralelo da histeria da personagem Magdá com os casos clínicos narrados por Freud, de onde Aluizio ganha o “status” de precursor da Psicanálise, por sua observação da realidade.

Leonardo Fróes tem dois artigos que tratam de escolas em suas origens estrangeiras: o Romantismo e o Simbolismo. Neste último, entretanto (o título é: “Símbolos, poema em prosa e literatura intimista”), coloca, junto a sua exposição sobre Faulkner, Kafka, Roberto Musil, Joyce, Beckett, na imprecisão dos simbolistas, um dos romancistas menos lidos, quase esquecido, de nossa história literária: Cornelio Penna, com sua Fronteira, romance que de fato fica na fronteira entre a razão e o impreciso. E, aliás, no artigo o termo simbolista se expande, quase como já fora expandido o Barroco e o Realismo por Rouanet e Portella. Para mim, que escrevi um libreto de ópera com base neste romance (para ser musicado por Guilherme Bauer), Fronteira dá uma visão impressionista a certo regionalismo mineiro, quando os romances regionalistas, ao contrário, beiravam o realismo quase naturalista.... O Simbolismo foi de fato um movimento literário paralelo ao Impressionismo na pintura e na música. E o artigo em questão, além de ampliar no tempo a escola simbolista, tem o mérito de abrir esta “fronteira” excepcional de nossas letras para novos leitores.

Se, por um lado, Cornelio Penna, o romancista de “poucos iniciados” é destacado, numa demonstração de amplitude de visões o livro nos traz também o artigo de José Maurício Gomes de Almeida “Jorge Amado: criação ficcional e ideologia”, que trata de um romancista que sempre teve muita popularidade. Aí é levantada a questão: o comunista existente em seus primeiros romances vestia uma camisa de força que não encerrava sua verdadeira tendência. Esta se manifesta plenamente a partir de Gabriela, cravo e canela: “O valor máximo do universo do escritor é a liberdade”, no sentido anarquista mesmo, da individualidade livre, conquanto (e aí o seu “socialismo” que se confundia com o comunismo da época) sejam combatidas as desigualdades econômicas. “O gesto extremado de Quincas reproduz, no plano simbólico, a atitude do próprio Jorge Amado, abandonando as balizas estreitas do pensamento sectário, para encontrar sua própria identidade” (Referência à novela A morte e a morte de Quincas Berro d'Água, cujo personagem abandona a burguesia do lar e família para viver entre os bêbados e prostitutas do cais de Salvador). A ideologia amadiana está entre o seu anarquismo libertário e “a concepção da mestiçagem como um valor inalienável do povo brasileiro” (o que melhor se explicita no romance Tenda dos Milagres). O que há de notável em tais considerações é lembrar de um autor fundamental brasileiro (refletindo sobre as razões de suas características) que vem sendo desmerecido pelas últimas gerações, que concebem a Literatura como uma exposição de formas perpassadas por um simbolismo pouco claro, dentro de um gosto estandardizado, exterior, tal como um trabalho técnico. Fica esquecida a notável narrativa espontânea, que reflete nosso interior mais natural e lírico, que há, e com generosidade, em Jorge Amado. A última geração de ficcionistas argumenta que as narrativas lineares pertencem às novelas de televisão. Isto é falso. As novelas de televisão, em geral, são péssima ficção, sem verossimilhança, com personagens estereotipados, estropiados, etc. Acho que está faltando, para os leitores atuais (e daí sua redução), uma Literatura humanista como a de um Jorge Amado, e como a de qualquer boa Literatura de todos os tempos, sendo exemplo maior o Don Quijote, com seu Realismo, como observa Portella. Guimarães Rosa, neste sentido, foi sempre um realista, dentro de sua linguagem inventiva talvez o mais humanista de nossos escritores. De certa forma, este artigo do José Maurício Gomes de Almeida repensa um autor que pode provocar revisão em muitos conceitos.

Os representantes das escolas nem sempre são citados nos dois volumes, ocorrendo, por vezes, de aparecerem por ângulos que deles não se cogitara anteriormente, como é o caso referido de Aluízio Azevedo. Alcides Pecora, um especialista em Antônio Vieira, não aponta para o estilo barroco de sua composição, mas para “o modo sacramental” nos sermões. Alfredo Bosi coloca Machado de Assis dentro da análise sociológica do jurista Raymundo Faoro, em seu livro Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, quase como se resenhasse tal livro, sublinhando suas teses. Gonçalves Dias, de quem um Manuel Bandeira ou Carpeaux consideravam um dos maiores expoentes de nossa Poesia, não tem nenhum destaque especial, não sendo motivo de um texto exclusivo, como têm alguns árcades mineiros e outros parnasianos (inclusive Vicente de Carvalho, por Carlos Nejar). Mais curioso ainda é o artigo de Malcolm Silverman “Breve panorama do modernismo no Brasil”, onde Carlos Drummond de Andrade é apenas citado como cronista. E, aliás, nos dois volumes não se faz nenhum destaque a ele, talvez pela redundância de se falar em Drummond no momento. Esta, a originalidade da obra, tendo em vista que se propõe, sobretudo, a repensar as nossas escolas literárias, e não a ser um simples manual aos moldes dos já existentes. E nisto, sua colaboração para a nossa Literatura.

Há posições que contrariam frontalmente o que a crítica vem adotando desde a instauração de nosso Modernismo. É o caso do próprio Ivan Junqueira no artigo sobre Olavo Bilac, advertindo, no entanto, não querer “investir contra as conquistas da Semana de Arte Moderna”; “O que se pretende é apenas examinar o que Bilac fez, não propriamente como il meglior, mas como o competentíssimo fabbro que sempre foi”. E Junqueira qualifica Bilac como um versemaker, o que demonstra, sem dúvida, uma admiração de um poeta a outro poeta. Aliás, sobre o Parnasianismo, o artigo de Antonio Carlos Secchin “Presença do Parnaso” ressalta exatamente que “o movimento costuma ser estigmatizado por não ser o que ele não se propôs a ser”. Assim, condena-se o Parnasianismo por não ser romântico, não integrar o Simbolismo, e até por Bilac, num total anacronismo, não ter sido modernista! Quando o que se deveria é entender o que os parnasianos pretendiam ser, como se faz ao analisar qualquer escola. Enfim, há uma má vontade generalizada com os parnasianos, legada, sem dúvida, pelos modernistas, que, como observa Ivan Junqueira, “não sabiam bem o que queriam, embora soubessem bem o que não queriam. E entre as muitas coisas que não queriam estava a poesia de Bilac”...

Curiosamente, o último dos artigos é de Mário Chamie, “Práxis: a vanguarda nova e a nova poesia brasileira”. Para mim, ele melhor se ajustaria logo após o artigo “O movimento concreto em sua primeira década”, onde Luiz Costa Lima abre o texto advertindo que “para alguns, só o título provocará mal-estar a poesia concreta teria estragado anos de suas vidas ou obrigado a um longo desvio”, mas termina observando sobre o escândalo, malgrado tudo, que é o silêncio em torno à produção concreta. De certa forma, a poesia práxis também me parece historicamente datada, não do final do século XX, mas dos seus anos 60. O artigo que melhor representa, talvez, os últimos tempos, é o do Affonso Romano de Sant'Anna, “As aporias da arte contemporânea”, sobretudo por se referir à chamada pós-modernidade. Na verdade, mal ou bem, esta a expressão para os tempos correntes. Affonso critica, sobretudo, a “arte conceitual” no campo das artes plásticas. E combate o pós-modernismo por sua estética (refere-se à “arte do pastiche”). Há de se pensar, no entanto, que o pós-moderno, tal como o moderno, ou a expressão “contemporâneo” não são por si definidores de estética. Para muita gente que tenho lido, a pós-modernidade é tudo que vem depois das “modernidades”, que sempre procuraram renovar, a todo custo, os valores artísticos, mesmo negando-se, por vezes. É um tempo (o nosso) em que as vanguardas e toda espécie de inovação, inclusive a antiarte, tornaram-se História, e o escritor que a conhece lança mão de todo elemento, indo, aos poucos, sem mais a preocupação de radicalizar, formando talvez novas escolas, ou, ao menos, no seu desenvolvimento, novas características. No campo da Poesia, isto é visível, e bem merece um novo ciclo na ABL. São inúmeros os novos valores que têm despontado desde os anos 60 e que ainda não têm seu perfil bem definido em escolas de que tratam os livros. Tanto o Ivan, com seu arco amplo visto no início do artigo, tipicamente pós-moderno, quanto o Affonso aí se incluem. Somos (e aí eu me incluo) simplesmente pós-modernos, num mundo tendente à globalização e a um ecumenismo que talvez até possua alguma coisa de redentor. Pessoalmente, como poeta, acho que sou um pós-moderno neo-romântico. Alguém já escreveu sobre tal tendência, e tantas outras de hoje em dia? A tarefa na ABL a que Ivan Junqueira tem se dedicado, de organizar livros e conferências sobre nossa Literatura, é, felizmente, interminável, dada a quantidade de assuntos por tratar e sempre repensar, e a sua façanha, assim, criar-lhe-á a obra mais extensa que se possa imaginar, dentro da intensidade de que é prova a qualidade dos dois volumes tratados neste artigo.

Gerson Valle é poeta, membro do conselho editorial de Poiésis. Reside em Petrópolis-RJ. ( )

[Texto publicado na versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte, nº 110, maio de 2005, págs. 13 e 14]

<Previous   Next>
spacer
Textos mais acessados
Publicidade

 

Mambo is Free Software released under the GNU/GPL License.
spacer