(“Escolas Literárias no Brasil” é o título da obra em dois volumes, editada em 2004 pela Academia Brasileira de Letras ABL, em sua Coleção Austragésilo de Athayde, sob a coordenação do acadêmico Ivan Junqueira
Ivan Junqueira é,
antes de mais nada, poeta. Antônio Carlos Secchin bem define sua atividade
poética como muito intensa e pouco extensa (in: “O
exato exaspero”, prefácio para o livro “A sagração
dos ossos”, de Ivan Junqueira, Civilização Brasileira, 1994).
Sim, um poeta de poucos e curtos livros, que, entretanto, dedica-se com um afinco
imenso à Poesia. E a sua é muito própria, percorrendo,
sem aparente elucubração metafísica, a idéia da
morte, que aparece com certa constância nos “ossos”, ou seja,
na materialidade final de que a espécie se consubstancia, tocando mesmo
um vocabulário nem sempre corrente na modernidade, assim como formas
bem acabadas sem uma entonação propriamente parnasiana. Por não
encarar metafisicamente a morte, para ele “a vida é maior que a
morte”. Um materialista, convicto de cientificismo realista? Um novo Augusto
dos Anjos, que, inclusive, se aprazia em termos pouco convencionais, mesmo científicos
dentro de sua poesia? Há, no entanto, ao lado dos “ossos”
da matéria, um lirismo próprio, provindo de uma busca de musicalidade
inerente às palavras escolhidas para os versos, como neste quarteto tirado
de “Penélope: cinco fragmentos” (in: “O Grifo”,
Editora Nova Fronteira, 1987): “Sob o penhasco que anoitece / o som das
ondas vai rolando. / Penélope tece e destece. / O mar é onde,
o tempo é quando.” Aliás, seu lirismo chega a tocar Camões,
como no dístico final deste soneto inglês (também em “O
Grifo”): “E te amo além porque te sei perdida, / e mais te
amara fosse eterna a vida”. Por outro lado, há em Ivan, também,
uma certa secura concisa, talvez herdada de João Cabral (poeta que lhe
antecedeu na cadeira da Academia, e de que, em seu discurso de posse, fez uma
brilhante apreciação), como na quadra inicial de um poema que
traz um de seus temas mais recorrentes: “A morte é um cavalo seco
/ que pasta sobre o penedo; / ninguém o doma ou esporeia / nem à
boca lhe põe freios”, chegando, no entanto, na última quadra,
no seu entusiasmo que repassa Romantismo e Simbolismo, à apreciação
com certo tom de erotismo, que também o caracteriza em outros poemas:
“a morte é estrito desejo; / deita-se lânguida e bêbeda
/ à lenta espera daquele / que a leve, sôfrego, ao êxtase”.
Há, assim, um arco de saída e chegada que perpassa tendências
e conhecimentos de sua Poesia em tempo integral.
Não me proponho aqui
a comentar a obra de Ivan Junqueira. Tais observações servem apenas
para ilustrar a sua dedicação intensa (como observa Secchin)
à Poesia. Dedicação esta que o encaminhou ao estudo aprofundado
de línguas e conhecimento também profundo da Poesia de outros
povos, para daí saírem vastas traduções, dentre
outros de Baudelaire (“todas as” “Flores do Mal”), T.
S Elliot (poesias completas), Dylan Thomas, Chesterton, Leopardi, sempre com
introdução e notas. Se não é extensa a
sua obra poética, ela assim se torna, se compreendermos a realização
poética por leituras, reflexões, traduções, e ensaios
que abordam escolas literárias e autores de todos os tempos, como integrante,
seja como preparação ou “afinação”,
de sua própria poesia.
A extensão,
assim, de sua Poesia, é muito maior que os poemas publicados, e se faz
notar também pela relação de seus afazeres administrativos
voltados para a escrita e produção de livros, que passaram por
várias enciclopédias, Fundação Rio (como assessor
de Rubem Fonseca), FUNARTE (onde foi editor da revista idealizada por Ferreira
Gullar, Piracema), na Biblioteca Nacional (editor executivo da revista
Poesia Sempre) e, finalmente, o coroamento, como um dos 40 acadêmicos
do órgão que procura ser o mais representativo de nossas letras,
destacado sucessivamente como Tesoureiro, Secretário-Geral, e Presidente.
Entretanto, tal órgão a ABL nem sempre foi assim considerada por
grande parte de nossa intelectualidade. Houve muitos críticos, tal como
o teatrólogo Guilherme de Figueiredo, que escreviam horrores sobre a
Academia, lugar que parecia ser apenas um ponto de encontro de ociosidade para
se tomar chá e parolar... De alguns anos para cá tais críticas
já não podem ser feitas, pois a produção intelectual,
acaso existente a despeito dos críticos, passou a ser visível
para todos, com uma grande constância de ciclos de conferências
sobre diversos aspectos literários, publicações de séries
diversas de livros (como a Coleção Afrânio Peixoto e a Coleção
Austragésilo de Athayde), voltando a circular, inclusive, a “Revista
Brasileira” de histórica importância, e ainda exposições
e outros eventos marcantes. Ivan Junqueira tem coordenado quase todas estas
atividades, podendo-se mesmo dizer que é um dos acadêmicos que
mais se esmeram por “produzir sua Poesia” (em sentido maior, abrangendo
até mesmo o trabalho administrativo, pondo em tudo sua missão
de Poeta) no espaço da “nova ABL”, se assim se pode dizer.
Sob sua coordenação
realizaram-se vários ciclos de conferências, entre 2001 e 2003,
que tinham por temas as grandes escolas literárias no Brasil entre os
séculos XVII e XX, ministradas não só por acadêmicos,
mas por professores, críticos, escritores de destaque no mundo de nossas
letras. A idéia central não era a apresentação sistemática
e/ou didática dessas escolas, mas sim reflexões, na maior parte
das vezes até mesmo inovadoras, pressupondo ou não o conhecimento
prévio dos ouvintes sobre as escolas. Depois, em 2004, Ivan Junqueira
coordenou a edição em 2 volumes de tais ciclos. O resultado é
bastante original, com os enfoques e abordagens completamente diferentes dados
por cada autor nos artigos saídos de conferências. Alguns, inclusive,
têm por tema questões gerais da escola que tratam, sem, necessariamente
tocarem em sua manifestação brasileira. Destes, curiosíssimo
é observar certa analogia de observação quanto a escolas
bem diversas. Refiro-me às páginas assinadas por Sérgio
Paulo Rouanet e Eduardo Portella. O primeiro, ao tratar do Barroco, lembra que,
segundo Eugenio d'Ors, esta escola é um eon, “uma constante
histórica que ressurge em diferentes momentos da evolução
dos homens”. E dá os exemplos de seus diversos aparecimentos por
épocas diferentes, inclusive afirmando que “Vivemos hoje um verdadeiro
boom do neobarroco. Ele se manifesta nas artes decorativas, nas artes
plásticas, e, como vimos, no cinema, sempre com a preocupação
de valorizar o kitsch, de recorrer à sua estética de
excesso, do desmedido, do ornamentalismo à outrance, sempre
visando produzir uma impressão de impacto, de estupefação”.
E Eduardo Portella, em seu texto “Realismo sem adjetivos” define:
“O Realismo é um dos movimentos mais indefinidos da história
literária”; “...no lugar de ser uma escola, com tudo o que
esta possa ter de convencional, é antes o modo de ver a realidade...”
E define o mais radical escritor realista moderno como sendo Miguel de Cervantes
com seu Don Quijote de la Mancha. Assim, tanto o Barroco quanto o Realismo
não se definem em seus tempos precisos, retornando sempre como características
do próprio ser humano. Dentro do tempo propriamente realista, Portella
lembra que o Realismo nasceu da agonia das ilusões no “crepúsculo
do Romantismo”, aludindo a Balzac e as “Ilusões Perdidas”.
De onde provém um interessante jogo de palavras, não aconselhando
transpor “esse precário esquema argumentativo para a literatura
brasileira”: “No Brasil não houve “perdas”, porque
não houve “ilusões”. As nossas ilusões eram
ilusões de segunda mão”... Aliás, ainda de Sergio
Paulo Rouanet, e considerando agora o nosso realismo, bastante inovador é
o artigo “A construção da histeria feminina em Aluizio Azevedo”,
onde demonstra ser “O Homem”, romance normalmente desprezado pela
crítica, tão bom quanto “O Mulato”, “Casa de
Pensão”, “O Coruja” e “O Cortiço”,
fazendo um paralelo da histeria da personagem Magdá com os casos clínicos
narrados por Freud, de onde Aluizio ganha o “status” de precursor
da Psicanálise, por sua observação da realidade.
Leonardo Fróes tem
dois artigos que tratam de escolas em suas origens estrangeiras: o Romantismo
e o Simbolismo. Neste último, entretanto (o título é: “Símbolos,
poema em prosa e literatura intimista”), coloca, junto a sua exposição
sobre Faulkner, Kafka, Roberto Musil, Joyce, Beckett, na imprecisão
dos simbolistas, um dos romancistas menos lidos, quase esquecido, de nossa
história literária: Cornelio Penna, com sua Fronteira,
romance que de fato fica na fronteira entre a razão e o impreciso.
E, aliás, no artigo o termo simbolista se expande, quase como já
fora expandido o Barroco e o Realismo por Rouanet e Portella. Para mim, que
escrevi um libreto de ópera com base neste romance (para ser musicado
por Guilherme Bauer), Fronteira dá uma visão impressionista
a certo regionalismo mineiro, quando os romances regionalistas, ao contrário,
beiravam o realismo quase naturalista.... O Simbolismo foi de fato
um movimento literário paralelo ao Impressionismo na pintura
e na música. E o artigo em questão, além de ampliar no
tempo a escola simbolista, tem o mérito de abrir esta “fronteira”
excepcional de nossas letras para novos leitores.
Se, por um lado, Cornelio
Penna, o romancista de “poucos iniciados” é destacado, numa
demonstração de amplitude de visões o livro nos traz também
o artigo de José Maurício Gomes de Almeida “Jorge Amado:
criação ficcional e ideologia”, que trata de um romancista
que sempre teve muita popularidade. Aí é levantada a questão:
o comunista existente em seus primeiros romances vestia uma camisa de força
que não encerrava sua verdadeira tendência. Esta se manifesta plenamente
a partir de Gabriela, cravo e canela: “O valor máximo
do universo do escritor é a liberdade”, no sentido anarquista
mesmo, da individualidade livre, conquanto (e aí o seu “socialismo”
que se confundia com o comunismo da época) sejam combatidas as desigualdades
econômicas. “O gesto extremado de Quincas reproduz, no plano simbólico,
a atitude do próprio Jorge Amado, abandonando as balizas estreitas do
pensamento sectário, para encontrar sua própria identidade”
(Referência à novela A morte e a morte de Quincas Berro d'Água,
cujo personagem abandona a burguesia do lar e família para viver entre
os bêbados e prostitutas do cais de Salvador). A ideologia amadiana está
entre o seu anarquismo libertário e “a concepção
da mestiçagem como um valor inalienável do povo brasileiro”
(o que melhor se explicita no romance Tenda dos Milagres). O que há
de notável em tais considerações é lembrar de um
autor fundamental brasileiro (refletindo sobre as razões de suas características)
que vem sendo desmerecido pelas últimas gerações, que concebem
a Literatura como uma exposição de formas perpassadas por um simbolismo
pouco claro, dentro de um gosto estandardizado, exterior, tal como um trabalho
técnico. Fica esquecida a notável narrativa espontânea,
que reflete nosso interior mais natural e lírico, que há, e com
generosidade, em Jorge Amado. A última geração de ficcionistas
argumenta que as narrativas lineares pertencem às novelas de televisão.
Isto é falso. As novelas de televisão, em geral, são péssima
ficção, sem verossimilhança, com personagens estereotipados,
estropiados, etc. Acho que está faltando, para os leitores atuais (e
daí sua redução), uma Literatura humanista como a de um
Jorge Amado, e como a de qualquer boa Literatura de todos os tempos, sendo exemplo
maior o Don Quijote, com seu Realismo, como observa Portella. Guimarães
Rosa, neste sentido, foi sempre um realista, dentro de sua linguagem inventiva
talvez o mais humanista de nossos escritores. De certa forma, este artigo do
José Maurício Gomes de Almeida repensa um autor que pode provocar
revisão em muitos conceitos.
Os representantes das escolas
nem sempre são citados nos dois volumes, ocorrendo, por vezes, de aparecerem
por ângulos que deles não se cogitara anteriormente, como é
o caso referido de Aluízio Azevedo. Alcides Pecora, um especialista em
Antônio Vieira, não aponta para o estilo barroco de sua composição,
mas para “o modo sacramental” nos sermões. Alfredo Bosi coloca
Machado de Assis dentro da análise sociológica do jurista Raymundo
Faoro, em seu livro Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio,
quase como se resenhasse tal livro, sublinhando suas teses. Gonçalves
Dias, de quem um Manuel Bandeira ou Carpeaux consideravam um dos maiores expoentes
de nossa Poesia, não tem nenhum destaque especial, não sendo motivo
de um texto exclusivo, como têm alguns árcades mineiros e outros
parnasianos (inclusive Vicente de Carvalho, por Carlos Nejar). Mais curioso
ainda é o artigo de Malcolm Silverman “Breve panorama do modernismo
no Brasil”, onde Carlos Drummond de Andrade é apenas citado como
cronista. E, aliás, nos dois volumes não se faz nenhum destaque
a ele, talvez pela redundância de se falar em Drummond no momento. Esta,
a originalidade da obra, tendo em vista que se propõe, sobretudo, a repensar
as nossas escolas literárias, e não a ser um simples manual aos
moldes dos já existentes. E nisto, sua colaboração para
a nossa Literatura.
Há posições
que contrariam frontalmente o que a crítica vem adotando desde a instauração
de nosso Modernismo. É o caso do próprio Ivan Junqueira no artigo
sobre Olavo Bilac, advertindo, no entanto, não querer “investir
contra as conquistas da Semana de Arte Moderna”; “O que se pretende
é apenas examinar o que Bilac fez, não propriamente como il
meglior, mas como o competentíssimo fabbro que sempre foi”.
E Junqueira qualifica Bilac como um versemaker, o que demonstra, sem
dúvida, uma admiração de um poeta a outro poeta. Aliás,
sobre o Parnasianismo, o artigo de Antonio Carlos Secchin “Presença
do Parnaso” ressalta exatamente que “o movimento costuma ser estigmatizado
por não ser o que ele não se propôs a ser”. Assim,
condena-se o Parnasianismo por não ser romântico, não integrar
o Simbolismo, e até por Bilac, num total anacronismo, não ter
sido modernista! Quando o que se deveria é entender o que os parnasianos
pretendiam ser, como se faz ao analisar qualquer escola. Enfim, há uma
má vontade generalizada com os parnasianos, legada, sem dúvida,
pelos modernistas, que, como observa Ivan Junqueira, “não sabiam
bem o que queriam, embora soubessem bem o que não queriam. E entre as
muitas coisas que não queriam estava a poesia de Bilac”...
Curiosamente, o último
dos artigos é de Mário Chamie, “Práxis: a vanguarda
nova e a nova poesia brasileira”. Para mim, ele melhor se ajustaria logo
após o artigo “O movimento concreto em sua primeira década”,
onde Luiz Costa Lima abre o texto advertindo que “para alguns, só
o título provocará mal-estar a poesia concreta teria estragado
anos de suas vidas ou obrigado a um longo desvio”, mas termina observando
sobre o escândalo, malgrado tudo, que é o silêncio em torno
à produção concreta. De certa forma, a poesia práxis
também me parece historicamente datada, não do final do século
XX, mas dos seus anos 60. O artigo que melhor representa, talvez, os últimos
tempos, é o do Affonso Romano de Sant'Anna, “As aporias da arte
contemporânea”, sobretudo por se referir à chamada pós-modernidade.
Na verdade, mal ou bem, esta a expressão para os tempos correntes. Affonso
critica, sobretudo, a “arte conceitual” no campo das artes plásticas.
E combate o pós-modernismo por sua estética (refere-se à
“arte do pastiche”). Há de se pensar, no entanto, que o pós-moderno,
tal como o moderno, ou a expressão “contemporâneo”
não são por si definidores de estética. Para muita gente
que tenho lido, a pós-modernidade é tudo que vem depois das “modernidades”,
que sempre procuraram renovar, a todo custo, os valores artísticos, mesmo
negando-se, por vezes. É um tempo (o nosso) em que as vanguardas e toda
espécie de inovação, inclusive a antiarte, tornaram-se
História, e o escritor que a conhece lança mão de todo
elemento, indo, aos poucos, sem mais a preocupação de radicalizar,
formando talvez novas escolas, ou, ao menos, no seu desenvolvimento, novas características.
No campo da Poesia, isto é visível, e bem merece um novo ciclo
na ABL. São inúmeros os novos valores que têm despontado
desde os anos 60 e que ainda não têm seu perfil bem definido em
escolas de que tratam os livros. Tanto o Ivan, com seu arco amplo visto no início
do artigo, tipicamente pós-moderno, quanto o Affonso aí se incluem.
Somos (e aí eu me incluo) simplesmente pós-modernos, num mundo
tendente à globalização e a um ecumenismo que talvez até
possua alguma coisa de redentor. Pessoalmente, como poeta, acho que sou um pós-moderno
neo-romântico. Alguém já escreveu sobre tal tendência,
e tantas outras de hoje em dia? A tarefa na ABL a que Ivan Junqueira tem se
dedicado, de organizar livros e conferências sobre nossa Literatura, é,
felizmente, interminável, dada a quantidade de assuntos por tratar e
sempre repensar, e a sua façanha, assim, criar-lhe-á a obra mais
extensa que se possa imaginar, dentro da intensidade de que é
prova a qualidade dos dois volumes tratados neste artigo.
Gerson Valle é
poeta, membro do conselho editorial de Poiésis. Reside em Petrópolis-RJ.
(
)
[Texto publicado
na versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte,
nº 110, maio de 2005, págs. 13 e 14]