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Fernando
Py escreve sobre o ensaio "O Parnasianismo na poesia brasileira",
de Sânzio de Azevedo.
O Parnasianismo foi um movimento
literário de inegável importância na história literária
do Ocidente, a partir sobretudo da França, em meados do século
XIX. Surgiu como reação ao excessos subjetivistas do Romantismo
e deveu seu nome a uma coletânea intitulada Le Parnasse contemporain (1866).
Os poetas que a integravam propunham uma poesia realista, descritiva, isenta
de intimismo, buscando principalmente a perfeição formal que o
Romantismo negligenciara.
Foi grande a repercussão
do movimento no Brasil. Mas, apesar de tudo, quase nunca os poetas brasileiros
respeitaram uma das normas do parnasianismo francês: o realismo objetivo,
a descrição isenta de emoções pessoais. Em seu ensaio
O Parnasianismo na poesia brasileira (Fortaleza: Editora da
UFC / Sobral: Edições UVA, 2004, 376p.), o professor Sânzio
de Azevedo, seguindo a lição anterior de Péricles Eugênio
da Silva Ramos,1 ressalta o fato de que o movimento no Brasil não só
não se fez tributário servil do parnasianismo francês, como
teve precursores em três correntes preparatórias: a poesia filosófico-científica;
a poesia realista; e a poesia socialista. Os poetas do primeiro grupo buscavam
praticar uma poesia que demonstrasse que conheciam, nas palavras de Péricles
Eugênio da Silva Ramos, "os grandes princípios da filosofia
geral e o espírito renovador da ciência no século XIX",2
sem no entanto fazer uma poesia didática.
Sânzio de Azevedo
comenta dois desses poetas: Teixeira de Sousa, hoje inteiramente esquecido,
e Martins Júnior.
A corrente da poesia realista foi certamente a que maior influência exerceu
sobre o parnasianismo brasileiro. Basicamente lutava contra a idealização
romântica, e cultivava pormenores realistas nas descrições.
Sânzio de Azevedo estuda os dois principais membros dessa corrente: Teófilo
Dias (em geral arrolado entre os parnasianos, como iniciador da escola) e Carvalho
Júnior. Por seu turno, a poesia socialista em geral atacava a monarquia
e a igreja, defendia o sufrágio universal, pregava a república,
o comunismo, a paz, a igualdade social e o amor total; os poetas deste grupo
acreditavam no primado do direito e no progresso. Deles, Sânzio de Azevedo
estuda dois membros: Fontoura Xavier, em geral classificado como parnasiano
ou precursor do Simbolismo, e Lúcio de Mendonça, hoje pouco lembrado,
e tido às vezes como poeta realista.
Contudo, é tempo
de assinalar que o livro de Sânzio de Azevedo não constitui propriamente
um volume de história. Sua estrutura sugere antes um trabalho de visão
geral do parnasianismo e dos poetas parnasianos no Brasil. Sob este aspecto,
assemelha-se ao Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy
(Brasília: Conselho Federal de Cultura / INL, 2ª edição,
1973, 2 vols.). Isto não é desdouro, pois, ao contrário,
tal organização permite ao autor demorar-se mais sobre os poetas
visados, realçando sua importância e características. Desse
modo, Sânzio de Azevedo relaciona e estuda os parnasianos, em geral, pelos
Estados, e oferece ao leitor um verdadeiro panorama do movimento brasileiro,
muito afim do panorama traçado por Andrade Muricy.
Pois na verdade, além
de nem sempre respeitarem com rigor os postulados do parnasianismo francês,
nossos parnasianos por vezes – muito mais do que se poderia esperar –
fizeram poemas tipicamente simbolistas. Não somente os chamados menores,
mas também os maiores representantes da escola, como o autor não
se furta a registrar.
Talvez o caso mais conhecido
seja o do poema 'Plenilúnio' de Raimundo Correia. Sânzio de Azevedo
reconhece que "o clima do poema é de pleno subjetivismo",3
e nele o poeta escreve: "Astro dos loucos, sol da demência, / Vaga,
noctâmbula aparição!"4 – compondo, a meu ver,
um de seus melhores poemas, e um clássico do simbolismo brasileiro. Da
mesma forma, Bilac (em Alma inquieta e principalmente em Tarde) também
paga tributo ao simbolismo, além de prestar homenagem póstuma
a Cruz e Sousa ("Diamante negro", de Alma inquieta) e apresentar um
clima romântico irrecusável na Via Láctea e em diversos
poemas, como as "Baladas românticas", também de Alma
inquieta. Já Alberto de Oliveira, com todos os seus versos parnasianos
e seu "Vaso grego" de equivocada memória,5 denota aspectos
essencialmente românticos na sua poesia, sobretudo no longo poema 'Alma
em flor'. Estaria, assim, em todos os sentidos, quebrada a impassibilidade e
o realismo objetivo a todo custo, propostos pelo parnasianismo francês.
Sânzio de Azevedo arrola exemplos destes e de muitos outros poetas no
livro e, assim, vemos que o parnasianismo entre nós deixou-se impregnar
bastante pelo simbolismo.
O mesmo ocorreu, todavia,
na direção oposta. Poetas que consideramos expoentes do simbolismo,
além de outros de origens parnasianas, não se libertaram de todo
da escola que procuravam combater. O próprio Cruz e Sousa, se renovou
a poesia brasileira no conteúdo, permaneceu preso ao parnasianismo na
forma, e com ele muitos outros da sua geração e das gerações
posteriores. Aliás, o simbolismo no Brasil não chegou a se impor
(Carpeaux chega a falar em fracasso da escola6) e a interpenetração
de ambas as escolas é patente. Houve, no caso do parnasianismo, um fenômeno
talvez tipicamente nosso: sobrevivendo muito além do esperado, o parnasianismo
deu um subproduto a que chamamos neoparnasianismo, cujos principais expoentes
prolongaram os tiques e defeitos dos grandes nomes da escola, provocando, desse
modo, uma feroz rejeição do parnasianismo como um todo.7 Até
hoje, como sabemos, o nosso parnasianismo se ressente dessa rejeição
dos modernistas, a ponto de a escola ainda ser "estigmatizada como a estética
do mau-gosto" (p. 9).
Portanto, é muito
bem-vindo o trabalho do prof. Sânzio de Azevedo. O leitor só terá
a ganhar com a leitura do livro, não apenas com o conhecimento que adquire,
mas, principalmente, porque terá oportunidade de corrigir algumas idéias
que vem alimentando através dos anos. Só assim poderá enxergar
como foi criativo o nosso parnasianismo e de que maneira ele naturalmente se
encaixa na evolução da nossa literatura.
Notas
1. "A renovação parnasiana na poesia", in: Afrânio
Coutinho (dir.): A literatura no Brasil (Rio de Janeiro: Sul-Americana, 3ª
edição, vol.
3, p. 83).
2. Idem, ibidem.
3. Sânzio de Azevedo, ob. cit., p. 70.
4. Raimundo Correia, Poesias (Rio de Janeiro: Livraria São José,
6ª edição, 1958, p. 98). Revisão do texto e notas
por Waldir Ribeiro do
Val.
5. Sânzio de Azevedo mostra que a obra de Alberto de Oliveira "não
se pode resumir ao 'Vaso grego'" (p. 41). Tal atitude significaria, por
certo, uma
concepção redutora da poesia de Alberto e de todo o parnasianismo
no Brasil.
6. Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. Rio de Janeiro:
Letras & Artes, 3ª edição, 1964, p. 235.
7. Essa rejeição está consubstanciada, principalmente,
na série de artigos de Mário de Andrade intitulados "Mestres
do passado", reproduzidos integralmente no trabalho de Mário da
Silva Brito: História do Modernismo brasileiro – Antecedentes da
Semana de Arte Moderna (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2ª edição, revista, 1964, p. 252-309).
[Texto publicado
na versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte,
nº 109, abril de 2005, pág. 13]
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