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MÚSICA ELETROACÚSTICA BRASILEIRA PDF Print E-mail
Written by Gerson Valle   
03-Fev-2010 às 14:16

No início dos anos 60 o jovem carioca Jorge Antunes formou-se em dois difíceis e diferentes cursos superiores, o de Física e o de Composição e Regência. De posse de seus conhecimentos, construiu geradores que lhe possibilitaram compor as primeiras Músicas Eletrônicas brasileiras (Antunes também teve formação em artes plásticas, e, à época, antes de Oiticica ou qualquer outro, realizou a primeira exposição no Brasil de uma instalação, relacionando sons com cores, relação esta que constituiria mais tarde tema de seu doutorado na Sorbonne).

 

Normalmente as invenções e aperfeiçoamentos técnicos ocorrem, em arte, pelo desenvolvimento de uma linguagem que vai necessitando expressar-se de forma diferenciada. Na música, os modernismos do século XX efetivamente encaminharam as linguagens para campos atonais, seriais, aleatórios, que divergiam da harmonia tradicional que se havia consolidado no século XVIII com Bach/Rameau, sem romper, no entanto, certa lógica tradicional do discurso da composição. Mas, no que os experimentalismos encontraram-se com a eletrônica, alguns compositores vislumbraram não mais o “aperfeiçoamento” dos meios de expressão de sua linguagem, mas a “elaboração de uma nova linguagem”, desvinculada da evolução dentro da lógica que vinha ocorrendo na música ocidental. Uma peça eletroacústica “erudita”, em outras palavras, não procura reproduzir canções ou “sonatas-formas” nem nada similar. Isto ocorre com as guitarras do pop ou do rock. Mas, nos “eruditos”, as peças se desenvolvem em função dos sons novos que se tornaram possíveis com a eletrônica. Eles é que criaram a nova estética. Sua percepção torna-se diferente da música instrumental ou vocal tradicional. Não existe a idéia, por exemplo, de se fazer ouvir uma sinfonia de Beethoven com os novos sons possibilitados pelas técnicas eletrônicas, nem uma melodia popular em que se tornam elétricas as velhas guitarras, como ocorre na chamada “música eletrônica” popular. A peça é construída não para se ouvir uma música conhecida ou “reconhecível” nos velhos moldes, mas uma elaboração ocorrida em função dos sons mesmos que a eletrônica possibilita gravar. O meio se torna, mais que nunca, a expressão.


Houve alguns precursores na linha de pesquisa de novos sons para uma nova música, como o futurista Luigi Russolo, já na década de 1910, e sua “arte dos ruídos”, Edgar Varèse na década de 20, John Cage inventando o “piano preparado” (com uso das cordas e da madeira do piano) em 1938, assim como alguns sons eletrificados foram modificando os hábitos do ouvido, como o “theremin” (um alarme que percorre diversas alturas de som, na dependência de sua proximidade) ou as ondas Martenot. Mas, foi por volta dos anos de 1950 que surgiu na França (Paris), na liderança do engenheiro de som Pierre Schaeffer, a Música Concreta, e na Alemanha (Colônia) a Música Eletrônica, de que logo se evidenciou o compositor Karlheinz Stockhausen. A primeira consistia em gravar sons “concretos” (como cadeira se arrastando, batida de martelo, um trem se movimentando, sussurros de pessoas, pássaros, etc.) e montar a fita de gravação (como uma película cinematográfica), com cortes, colagens, manipulação de acelerandos, diminuendos, polifonias por gravações sobre gravações, distorções que afastam inclusive a identificação da origem do som, etc. A segunda consistia no mesmo processo de gravação, mas tirada de sons eletrônicos. Ambas acabaram por constituir, mais amplamente, a Música Eletroacústica, que há mais de meio século se pratica pelo mundo, sem, no entanto, ainda ter muita divulgação isoladamente, apesar de seus elementos aparecerem em vários arranjos de música popular, em trilhas sonoras de cinema ou televisão, e mesmo misturados com instrumentos convencionais em peças de concerto.


No Brasil, nosso antenado Villa-Lobos, aconselhou um professor de seu Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, o paraibano Reginaldo Carvalho, a pesquisar, em Paris, tais novidades. Este se tornou, na década de 1950, no nosso primeiro compositor de Música Concreta. No início dos anos 60 o jovem carioca Jorge Antunes formou-se em dois difíceis e diferentes cursos superiores, o de Física e o de Composição e Regência. De posse de seus conhecimentos, construiu geradores que lhe possibilitaram compor as primeiras Músicas Eletrônicas brasileiras (Antunes também teve formação em artes plásticas, e, à época, antes de Oiticica ou qualquer outro, realizou a primeira exposição no Brasil de uma instalação, relacionando sons com cores, relação esta que constituiria mais tarde tema de seu doutorado na Sorbonne). Detentor de inúmeros prêmios internacionais de composição e professor titular da Universidade de Brasília, Antunes sempre teve uma atuação política que deixou refletir em sua obra (que aborda diversas linguagens, não só a eletroacústica, dada sua formação heterogênea), em peças como Proudhonia, Elegia Violeta para Monsenhor Romero (No se mata la Justícia!), Sinfonia das Buzinas (que eram usadas como protesto na campanha das “diretas-já”), a ópera Olga (sobre a vida de Olga Benario, encenada no Theatro Municipal de São Paulo em 2006), etc. Paralelamente, dirigiu sindicato dos músicos e criou a Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica, em 1994, da qual é o presidente.  


A referida Sociedade acaba de lançar, neste ano de 2009, o álbum “Coletânea da Música Eletroacústica Brasileira”, constante de 5 cds e um volumoso e esclarecedor encarte, com uma apresentação deste tipo de música e seu desenvolvimento no Brasil, pelo compositor Luís Roberto Pinheiro, e as biografias dos 34 compositores e descrições das 54 peças que figuram nesta verdadeira antologia. Alguns nomes vêm formando escola no gênero há anos, como Conrado Silva, Rodolfo Caesar, Flo Menezes, alguns aparecem em diversas formas de vanguarda como Tim Rescala ou Jocy de Oliveira, havendo mesmo músicos de expressão mais distante que frequentaram, como um “poeta bissexto” a Música Eletroacústica, como José Maria Neves, muitos jovens e muitos já bem amadurecidos neste campo. Enfim, tal lançamento oferece oportunidade a se ter um panorama de uma importante facção da produção artística nacional não alcançada pela divulgação midiática convencional. Poucos são os que de fato a conhecem. E não me parece nunca ter havido, entre nós, uma oportunidade de se aproximar dessa Música, de uma forma até didática, como o referido álbum oferece. Para os que conhecem a Música Eletroacústica estrangeira, é o momento de se saber o que se faz no Brasil neste campo. Para os que a desconhecem de todo, não creio haver melhor introdução. E sem conhecimento, não me parece possível nenhuma reflexão estética ou apreciação lúdica. Depois de se penetrar no mundo habitado por este álbum, então é possível discutir-se, “desgostar”, discordar, dizer-se o que quer que se pense sobre tal forma de arte. Somente por isto, ele merece todo o louvor. E creio, sem dúvida, que muitos que encaravam com desconfiança a Música Eletroacústica haverão de se identificar na forma contemporânea dela se expressar.


NOTA: Os interessados podem pedir a coletânea em , ao preço promocional de R$25,00.


Gerson Valle é poeta e escritor, membro do conselho editorial do Jornal Poiésis e membro titular da Academia Brasileira de Poesia. É autor do libreto da ópera “Olga” de Jorge Antunes.

 

(publicado na edição impressa nº 165, dezembro de 2009, página 9)

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