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No ano do centenário do poeta gaúcho, a Nova Aguilar lança sua obra completa
Transcorre este ano o centenário do poeta gaúcho Mário Quintana (*Alegrete, RS 30-07-1906; + Porto Alegre, RS, 05-05-1994). Para comemorar a data, publicou-se recentemente a sua Poesia completa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, 1.022p.; organização, preparação do texto, prefácio e notas de Tânia Franco Carvalhal). A edição compreende os quinze livros de poesia que o poeta publicou em vida, mais o livro póstumo Água, e os cinco infanto-juvenis em verso.
A obra poética de Quintana se iniciou ainda em plena juventude, mas só principiou a ser recolhida em volume em 1940, quando o poeta publicou A rua dos cataventos, coletânea de 35 sonetos sem título e numerados à romana. São peças de intenso lirismo e muito expressivas, sem adornos ou artifícios. Rimados, alguns sem qualquer ortodoxia, e metrificados por vezes aparece um alexandrino no meio de decassílabos, como no soneto XXI traem aspectos neo-simbolistas. Quintana formou sua poesia muito à sombra de simbolistas alguns deles hoje praticamente esquecidos como Samain, Laforgue, Verhaeren, António Nobre, etc., o que por vezes dificulta uma compreensão melhor das invenções subjacentes de sua poesia.(1)
De todo modo, o poeta estava lançado; no segundo livro, Canções (1946), reafirma a fluidez musical, já observada nos sonetos, e constrói poemas que apresentam uma dicção próxima das cantigas de roda e de ninar. Sapato florido (1948) é um livro de poemas em prosa que até hoje perturba pela estranheza do espírito, a um tempo surrealista e coloquial, pela intensidade da expressão aforismática, por uma espécie de criação em que se mesclam o cotidiano e o fantástico, num amálgama de lirismo e humour com pitadas de satanismo melancólico. O aprendiz de feiticeiro (1950) mantém a visão surreal em poemas de versos livres; neles a imagética de Quintana adquire uma feição hermética, exibindo estranhas visões oníricas.
Já O espelho mágico (1951) compõe-se de quadras, por vezes irregulares quanto ao número de sílabas, em que o poeta se compraz em comentar aforismos ou epigramas de escritores tais como La Fontaine, Rivarol, Molière, e alguns outros, para comentar o cotidiano, as várias maneiras de ser, a filosofia, o trabalho, as mulheres, o estilo, etc., elaborando um conjunto que poderia ser chamado “menor”, mas que, a meu ver, se insere entre os mais representativos de sua poesia. Pois, evidentemente, aqui mais se acentua o ar passadista da poesia de Quintana e julgá-la pela aparência superficial é um erro em que incorreu boa parte da crítica contemporânea, que de certa forma desprezava o poeta, sem enxergar nele o humour refinado e sutil e a melancolia quase evanescente.
Mas, a partir de meados dos anos 60, poeta Quintana começou a ser grandemente valorizado, primeiro no estado natal e depois no Brasil inteiro. Suas rebeldias ao verso bem-feitinho, seu humour, por vezes prazenteiro, a melancolia um tanto voltada para o cotidiano de todo mundo, tudo isso foi fazendo um Quintana mais acessível, sobretudo às crianças para as quais havia anteriormente publicado um livro (O batalhão das letras, 1948) , a partir daí editando vários volumes para elas: Pé de pilão (1975), Lili inventa o mundo (1983), Sapo amarelo (1984), Nariz de vidro (1984) e Sapato furado (1994), este último póstumo.
Evidente que prosseguiu em sua obra principal, que vai mostrando uma grande noção de unidade extraída não apenas da permanência de temas e motivos, mas também, como acentua Tânia Franco Carvalhal no prefácio, “por poemas inteiros e mesmo versos isolados que, retomados de obra em obra, criam uma linha interna que os associa.” (p.16). Essa reiteração foi, com o tempo, consolidando as imagens e torneios poéticos de Quintana, e sua poesia afinal tornou-se proverbial no sentido de que muitos versos, poemas inteiros e frases dos poemas em prosa viraram “motivo” de epígrafe para diversos fatos da vida comum do gaúcho citadino ou campeiro.
Em 1973, publicou Caderno H, coletânea de textos em prosa, onde reafirma seu pendor aforismático. De 1976, são os Apontamentos de história sobrenatural, com retratos de pessoas e coisas, inclusive um auto-retrato (p.393), onde o humour se faz um tanto sentimental e a ironia é atenuada pela melancolia, sobretudo quando se refere a pessoas já mortas. Já em Esconderijos do tempo (1980),o sentimentalismo é trocado por uma atitude mais realista, uma visão mais lúcida da vida. Há contudo, vários poemas de recordação da infância e neles avulta a figura do pai. A vaca e o hipogrifo (1977) é nova coletânea de prosa, onde muitas peças relembram o Caderno H e o Sapato florido.
Baú de espantos (1986), Preparativos de viagem (1987), A cor do invisível (1989) e Velório sem defunto (1990) são coletâneas de poemas em versos, que de certo modo cristalizam sua poesia. Por outro lado, Da preguiça como método de trabalho (1987) e Porta giratória (1988) revivem o poema em prosa de Quintana, ora mais filosófico, ora mais aforismático. Os inéditos do poeta, no fim do volume, integram o livro Água, de publicação póstuma (2001) e mais os que eram inéditos quando da publicação dos poemas para crianças. Assim constitui-se a obra poética de Quintana que, desprezada a princípio passou, com justiça, a ser considerada uma das mais importantes da poesia brasileira do século XX.
Nota.
1. Fausto Cunha afirma que a poesia de Quintana é “difícil, porque intensamente alusiva e de um humour sutil, irredutível.” (cf. A luta literária, Editora Lidador, Rio de Janeiro,1964, p. 159).
Fernando Py é
poeta e tradutor, membro do conselho editorial de Poiésis e da Academia Petropolitana de Letras
[Texto
publicado na
versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte,
nº 120, março de 2006, pág. 14]
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